2004-05-25    -    [ Internet ]
 
É muito estranho...

Tudo o que podia ser inventado já foi inventado.” Com essas palavras avassaladoras, o diretor do escritório de patentes dos Estados Unidos recomendava, em 1899, a extinção de seu departamento, tendo em vista a espetacular onda de inovações surgidas em fins do século 19. A história está cheia de previsões tolas como essa sobre a tecnologia. A lição que tiramos disso é que toda análise das conseqüências econômicas desencadeadas pelo atual surto de inovações na área da tecnologia da informação (computadores, software, telecomunicações e Internet) tem de ser feita com muita cautela. Num extremo, os entusiastas da Internet dizem que a Web é a maior invenção desde a roda, transformando o mundo tão radicalmente que só nos resta fazer em pedacinhos os manuais da velha economia. No outro extremo, os céticos dizem que os computadores e a Internet nem de longe se comparam em importância à força motriz do vapor, ao telégrafo ou à eletricidade. Para eles, a tecnologia da informação não passa de um “brinquedo insignificante” e, quando a bolha da tecnologia estourar, os benefícios econômicos advindos dela não serão maiores do que os produzidos pela bolha das tulipas no século 17.

O primeiro computador eletrônico programável é de 1946 e sua memória era capaz de armazenar 20 palavras, mas a revolução da tecnologia da informação só começaria com a difusão dos mainframes, os computadores de grande porte, em fins dos anos 60, e com a invenção do microprocessador, em 1971. Desde então, o ritmo do avanço tecnológico costuma ser popularmente sintetizado pela Lei de Moore. Gordon Moore, co-fundador da Intel, previu em 1965 que a capacidade de processamento de um chip de silício dobraria a cada 18 meses. É o que tem acontecido. Os cientistas dizem que a Lei de Moore deverá vigorar por mais dez anos ainda. Por volta de 2010, qualquer computador terá uma velocidade de processamento, ao que tudo indica, 10 milhões de vezes superior à de um computador de 1975 — e a um custo real mais baixo.

Tarefas que requeriam a utilização de milhares de números costumavam demorar semanas; agora, bastam alguns segundos. Atualmente, o Taurus, da Ford, utiliza mais recursos de informática do que o mainframe de milhões de dólares empregado no programa espacial Apollo. Em 1985, a Ford tinha de desembolsar 60 000 dólares toda vez que batia um carro no muro para saber o que aconteceria em caso de acidente. Agora, com o computador, a colisão pode ser simulada por apenas 100 dólares. A capacidade e a velocidade das redes de comunicação também cresceram enormemente. Em 1970, eram necessários 187 dólares para transmitir a Enciclopédia Britânica por meio de arquivo eletrônico de costa a costa nos Estados Unidos, uma vez que as velocidades de transmissão eram lentas e as chamadas interurbanas, caras. Hoje em dia, a transmissão do conteúdo integral da Biblioteca do Congresso de uma ponta a outra do país sairia por apenas 40 dólares.

Com a queda crescente de custos no setor de comunicações, mais e mais computadores vão estar interconectados. A vantagem de estar online aumenta exponencialmente quanto maior for o número de conexões. Segundo a Lei de Metcalfe, atribuída a Robert Metcalfe, pioneiro das redes de computadores, o valor de uma rede cresce mais ou menos de acordo com o número de usuários elevado ao quadrado. A Internet só deslanchou de verdade depois que se inventaram a World Wide Web, em 1990, e o navegador, em 1993, mas o número de usuários em todo o mundo já ultrapassa 350 milhões e deverá chegar a 1 bilhão nos próximos quatro anos.

 

Nem tanto ao céu...

Não há dúvida de que há uma revolução em curso na forma como nos comunicamos, trabalhamos, compramos e nos divertimos. Mas será que tudo isso está de fato transformando a economia? Os otimistas mais radicais dizem que a tecnologia da informação ajuda a economia a crescer mais rapidamente. Mais: ela teria também eliminado a inflação e os ciclos econômicos. Em decorrência disso, as velhas regras econômicas e as formas tradicionais de valorização das ações não se aplicam mais. Os cibercéticos retrucam. Dizem que a troca de e-mails, o download de fotos dos amigos ou as reservas para as férias feitas pelo computador talvez sejam divertidos, mas a Internet não pode ser comparada a inovações como a invenção da imprensa, o motor a vapor ou a eletricidade. Há inclusive quem diga que a atual prosperidade americana não passa de uma bolha. Em quem devemos acreditar?

A verdade — como de praxe — está no meio termo. A Internet não é um acontecimento sem paralelos na História da humanidade. Ela tem muito em comum com o telégrafo, inventado na década de 1830, que acarretou também uma redução brutal nos custos de comunicação e aumentou o fluxo de informações na economia. Mas em hipótese alguma virou totalmente de cabeça para baixo os pressupostos econômicos tradicionais. O valor da tecnologia da informação e da Internet reside em sua capacidade de armazenar, analisar e transmitir informações instantaneamente, seja para onde for, a um custo ínfimo. Como diz Brad Delong, economista da Universidade da Califórnia, em Berkeley: “A tecnologia da informação e a Internet amplificam o poder da mente da mesma forma que as tecnologias da Revolução Industrial amplificaram o poder dos músculos”. Mas será que a tecnologia da informação faz parte realmente da mesma estirpe de revoluções tecnológicas do passado? Alguns testes podem nos ajudar a achar a resposta.

Em primeiro lugar, qual o seu grau de impacto sobre o dia-a-dia? A luz elétrica aumentou o número de horas de trabalho, e as estradas de ferro permitiram que os produtos e as pessoas circulassem muito mais fácil e rapidamente. Mas as invenções de maior impacto científico e social não são as que promovem necessariamente os maiores ganhos econômicos. A prensa tipográfica, para alguns a invenção mais importante do milênio, teve pouco efeito mensurável sobre o crescimento da produção per capita. Cientificamente falando, talvez a Internet não seja tão significativa quanto a prensa, o telégrafo ou a eletricidade, mas seu impacto econômico é provavelmente muito maior. Um dos motivos disso seria o fato de que o custo das comunicações nas tecnologias anteriores nunca caiu tanto como agora.


O paradoxo digital

Em segundo lugar, para medir o efeito de uma nova tecnologia é preciso avaliar em que medida ela dá mais eficiência aos processos de produção das empresas. A era do vapor deslocou a produção do lar para a fábrica; com a eletricidade, surge a linha de montagem. Agora, com computadores e Internet, a possibilidade de as empresas reformularem seus processos é surpreendente, da aquisição de insumos à descentralização e à terceirização.

O teste decisivo, entretanto, é o impacto de uma nova tecnologia sobre a produtividade da economia como um todo, quer possibilitando a produção mais eficiente dos produtos, quer criando produtos novos. O rápido crescimento da produtividade é a chave para a elevação do padrão de vida. Durante anos, as pessoas simplesmente não conseguiam entender por que os computadores, aparentemente, não eram capazes de elevar a produtividade. Hoje, porém, já existem sinais de que o crescimento da produtividade vem se acelerando nos Estados Unidos. Resta saber se esse crescimento mais acelerado é sustentável. É inegável, porém, que a economia americana teve uma década fabulosa, atingindo um ritmo de crescimento mais acelerado e inflação mais baixa, graças em parte à tecnologia.

Paul Saffo, do Instituto do Futuro, na Califórnia, acredita que a revolução tenha apenas começado. O setor de pesquisa e desenvolvimento das empresas americanas cresceu a uma taxa anual de 11% ao longo dos últimos cinco anos, o que significa que a inovação deverá continuar. Por enquanto, somente 6% da população mundial tem acesso à Internet; mesmo no mundo rico, esse percentual é de apenas 35%. Só um terço das fábricas americanas utiliza a Internet para aquisição de insumos ou vendas. Todas as tecnologias têm um comportamento semelhante: há uma certa lentidão no início, mas, tão logo adquire massa crítica, a tecnologia é difundida com rapidez. Além disso, a tecnologia da informação é apenas uma das três revoluções tecnológicas em andamento hoje em dia. Juntamente com a tecnologia de células de combustível, a genética e a biotecnologia, ela poderia criar uma onda muito mais poderosa do que algumas de suas predecessoras.

Mas não devemos perder de vista as previsões sobre o crescimento futuro. Quem acredita que a tecnologia criou um novo paradigma que permitirá ao PIB per capita americano continuar sua expansão acima de 3% ao ano não faz idéia da temeridade de suas previsões. Nem o vapor, as estradas de ferro e a eletricidade fizeram o PIB per capita dos Estados Unidos passar da taxa de 1,5% no século 19. Muitas expectativas atuais sobre o crescimento talvez sejam inverossímeis.


Uma história americana?

Por outro lado, o crescimento global pode muito bem se dar a um ritmo mais veloz do que no passado. Os Estados Unidos foram os primeiros a acolher a revolução da tecnologia da informação e a Nova Economia. Mas os ganhos na Europa, no Japão e em muitas outras economias emergentes poderiam ser ainda maiores. Se assim for, talvez esta venha a ser efetivamente a revolução tecnológica de maior impacto em todo o mundo. Mas e as leis econômicas? Comenta-se, por exemplo, que as regras de políticas monetárias e de antitruste que vigoravam na idade do aço e dos automóveis não têm mais validade. Mas, como disseram com muita clareza Carl Shapiro e Hal Varian em seu livro A Economia da Informação, “a tecnologia muda, mas as leis econômicas não”. O ciclo econômico não foi eliminado de fato; se a economia crescer demais, a inflação aparecerá; preços de ações ainda dependem de lucros, e os governos não devem deixar de alertar para o abuso dos monopólios.

Mas talvez a lei econômica mais importante de todas é que a nova tecnologia não é uma panacéia capaz de curar todos os males econômicos. Para colher todos os benefícios dela, os governos não podem abrir mão de políticas sadias. O recente sucesso econômico dos Estados Unidos não se deve tão-somente às novas tecnologias, mas também a políticas fiscais e monetárias estáveis, à desregulamentação e ao livre comércio. São grandes as possibilidades de políticas mal formuladas.

Para entender de que maneira os governos são capazes de sufocar os benefícios da inovação, basta voltar 600 anos no tempo e observar o que aconteceu na China, o país mais avançado tecnologicamente do mundo naquela época. Séculos antes do Ocidente, os chineses inventaram a prensa de tipos móveis, o forno de fundição e a máquina de fiar movida a água. Todo esse progresso, porém, sofreu um retrocesso por causa do rígido controle com que as autoridades o administravam, impedindo que a nova tecnologia se difundisse. Não se devem contar como certos os frutos da tecnologia.


Autor(a):
Pam Woodall (Revista The Economist) - Exame Negócios